Paulo Macaco na via Urubu Sacana (8c), Pedra do Urubu - Urca, RJ . Foto: André Ilha
Paulo na via dos Italiano, Pão de Açucar. Foto A P Faria
Paulo Macaco na via Urubu Sacana (8c), Pedra do Urubu - Urca, RJ . Foto: André Ilha
Figura fácil de ser encontrada na Pedra do Urubu e arredores nos anos 80 e 90, Paulo Bastos, o “Paulo Macaco”, foi um dos principais responsáveis pela importância que aquele bloco às margens da estrada que leva ao Pão de Açúcar veio a ter para o desenvolvimento da escalada esportiva. Na verdade, Paulo teve grande importância para a própria escalada esportiva em seus primórdios, quando ela ainda se encontrava em busca de uma identidade própria, além de ter sido um dos primeiros a se dedicar ao bouldering com um afinco que só nós dias atuais tornou-se corriqueiro.
Primeiro escalador negro a atingir tal patamar de projeção, seu estilo inconfundível – uma rara unanimidade entre os escaladores cariocas daquela época – serviu de fonte de inspiração para muitos, ainda que talvez ninguém tenha atingido tal nível de elegância ao se movimentar na rocha. Estilo que pode ser sintetizado pelo nome por ele escolhido para uma de suas mais marcantes realizações, o bloco Expressão Corporal, hoje graduado em VIIIc mas originalmente um IXa, um dos primeiros do país.
Paulo Macaco também parece ter sido o primeiro escalador carioca a ter patrocinadores que lhe proporcionavam dinheiro suficiente para se manter, ainda que precariamente, além de generosas quantidades de material que ele, com igual generosidade, repartia com os seus amigos da micro-sociedade da Pedra do Urubu, parceiros de farras e de escaladas.
Infelizmente, sua carreira foi interrompida abruptamente pela AIDS, que apesar de hoje estar inteiramente sob controle graças aos modernos tratamentos, deixou uma seqüela dramática: Paulo Macaco, está completamente cego. Mas nem este nem outros rudes golpes pessoais, como a perda, em um mesmo ano (1998), da companheira e do seu único filho aos 13 anos de idade, meses antes de descobrir a sua própria doença, foram capazes de diminuir o entusiasmo com que Paulo se refere à escalada.
Paulo, como e quando você começou a escalar?
No final de 79 um amigo me chamou para fazer uma caminhada ao Perdido do Andaraí, num domingo. Aquilo foi tão impactante para mim que eu voltei a subir a montanha direto, todos os dias, com outros amigos. Depois eu vi um filme sobre o Eiger e disse: “é isso o que eu quero fazer!”. Aí o irmão daquele meu amigo, já em 1980, me chamou para subir a Pedra da Gávea, e quando cheguei à Praça da Bandeira (grande clareira na trilha) vi uns escaladores fazendo a Passagem dos Olhos. Fiquei ali sentado, quase três horas, esperando eles descerem e pedi o endereço de um clube, e eles, apesar de serem do Carioca (Clube Excursionista Carioca), me deram o endereço do CEB (Centro Excursionista Brasileiro).
Então no início você se filiou a um clube?
Sim. A ida à Gávea foi num domingo e na segunda-feira à tarde eu já estava no CEB, mas encontrei tudo fechado. Fiquei então sentado na porta até às 7 horas, quando o clube finalmente abriu. Lá eu fiz um curso, mas fiquei no clube apenas cerca de um ano e meio, pois eu tinha o maior medo de chaminé e um guia de lá me disse que eu tinha que desistir da escalada, porque não dava para aquilo.
Falaram isso para você? (risos)
Falaram que eu era muito medroso, que não levava jeito porque tinha muito medo de chaminé (risos). Saí até chorando do clube, mas aí o Mário Arnaud soube o que aconteceu, disse que ia me mostrar uns blocos na Reserva do Grajaú e me jogou no caminho: me mostrou o Lance do Americano, o Oitavão, aí eu vivia na Reserva.
Você então passou a se dedicar ao bouldering, não? E qual a sua maior realização nesse campo?
O Olhos de Fogo, na Reserva do Grajaú. Por volta de 1985 o Marcello Ramos me mostrou o bloco, que me pareceu impossível, mas depois de muito trabalho – uns três meses tentando – consegui fazê-lo em janeiro de 86, talvez o primeiro IXa do Brasil feito por um brasileiro. Aí em 87 veio o Godoffe (Jacky Godoffe, famoso escalador francês), que quebrou uma agarra-chave no crux e eu então falei: “Agora sim ficou impossível de fazer esse bloco!”. Mesmo assim eu fiquei quase dois meses tentando muito, fiquei com a ponta dos dedos em carne viva, mas finalmente consegui fazer o lance sem a tal agarra. Antes disso o bloco não tinha nome, mas quando eu o fiz desta vez estava tão irado, com os olhos tão vermelhos, que o Marco Vidon, que estava comigo, disse: “você está com os olhos vermelhos que nem fogo; posso dar o nome de ‘Olhos de Fogo’ para o lance?”, e eu então disse que concordava.
Você foi um dos freqüentadores mais assíduos da Pedra do Urubu na época de sua maior importância, quando muitas vias, então feitas em top rope, foram equipadas e depois guiadas. Fale um pouco sobre como você vivenciou esse momento.
Ela foi um marco na minha vida, porque ali antes era um bloco que só tinha artificiais. Então eu, Serginho (Sérgio Tartari), Alexandrinho (Alexandre Portela), Marcelinho (Marcelo Braga), Poyares (Sérgio Poyares), Katinha (Kátia Ribeiro) e outros começamos a colocar top rope no Urubu Capenga, depois no Urubunda, depois no Urubu-Rei... Aí veio o Bruno (Bruno Menescal), que grampeou as vias para depois começarmos a guiá-las.
Você foi um dos primeiros escaladores a ser patrocinado e conseguir viver de escalada. Como foi isso que isso se deu?
A maioria desses patrocínios foi conseguida através do Mozart Catão, do Bruno Menescal e do Jacky Godoffe. Tinha a Au Vieux Campeur, a Boreal, a Spy – um fabricante de óculos –, a Cantão, a Montcamp...
E dava para viver de escalada?
Dava para sobreviver. Eu ganhava uma quantidade muito grande de material, que parte distribuía para os amigos e parte revendia, mas em espécie só ganhava da Montcamp.
Você nunca teve vontade de se dedicar à escalada tradicional? Como você via escaladores como Serginho e Alexandrinho?
Via como uma coisa excepcional. Eu tinha vontade, admirava, mas era muito preguiçoso (risos). Preferia aquela coisa bem light, não gostava muito de caminhar...
Alguém te serviu como fonte de inspiração?
Muitos serviram. O Serginho Tartari me ajudou e me influenciou muito, o Marcelinho também.
As primeiras competições no Brasil ocorreram quando você se encontrava em plena atividade. Você participou de muitas? Você gostava delas?
Gostava. Tinha umas pessoas que escalavam e achavam que não era legal competição, mas eu gostava de competir e cheguei a ganhar algumas.
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