Um dos primeiros contatos que montanhistas tem com algo relacionado à congelamentos é a vasoconstricção em extremidades corporais (dedos, nariz, orelhas). Um exemplo muito comum é quando tiramos as luvas para tirar uma foto ou manipular equipamentos. O chamado 'frio de doer' primeiramente, faz com que a circulação diminua nos capilares das extremidades corporais.
Voltar a circulação ao normal é algo doloroso, mas geralmente acabamos conseguindo isso em alguns instantes com as mãos nos bolsos. Em alguns casos, escaladores reclamam que ficaram com dedos dormentes. Pois bem, o congelamento, é apenas conseqüência de uma exposição mais demorada no 'frio de doer'. Confie em mim, você não quer ter congelamentos. A recuperação destes pode demorar anos!
Há três graus de congelamentos, cada um deles vai depender do estado clínico e/ou estágio de evolução.
O chamado primeiro grau se caracteriza por pelo tom acinzentado que o membro ganha após a exposição ao frio. Muita dor é sentida durante o reaquecimento deste e a sensibilidade é perdida. A total recuperação não passará de algumas semanas.
O segundo grau superficial é quando visíveis bolhas aparecem na área afetada, 12 horas após a exposição. Quando dedos da mão são afetados, estes recebem o nome de 'dedos de salsicha'. A recuperação também dura algumas semanas, mas os problemas de sensibilidade podem demorar mais em acabar.
O segundo grau profundo é caracterizado por insensibilidade total do membro, aparição de algumas bolhas de sangue e inchamento mais acima da área afetada.
Quando cristais de gelo já estão formados no tecido, este já está necrosado e o dano é irreversível. Se estes congelamentos profundos resultam em necroses (e amputações em conseqüência), o congelamento passa a ser um terceiro grau. Há uma grande chance que congelamentos de terceiro grau não tratados evoluam para gangrenas, o que pode ser perigoso à vítima e levar ao óbito.
Agravantes para as chances de congelamentos
Má aclimatação e desidratação: Congelamentos podem ocorrer a qualquer altitude, só vão depender da temperatura na qual o corpo humano for exposto e por quanto tempo. No entanto, as grandes altitudes contribuem em 50% no risco de congelamentos. O gasto calórico é extremamente alto em altitudes, mas muito além disso, a hidratação é o fator chave para a gravidade de um congelamento. Uma má aclimatação significa que o escalador não se hidratou direito e isso quer dizer que seu sangue está espesso (o que é ocasionado por aumento de glóbulos vermelhos). Sangue espesso circula com mais dificuldade e com menos velocidade pelo corpo. Extremidades corporais são as mais afetadas nesta situação, já que a área de exposição ao frio é maior do que qualquer outra no corpo.
Roupas ruins ou que não transpiram: É importante lembrar, que roupas para frio não 'são quentes', mas apenas evitam que o corpo perca tantas calorias ao ambiente. Mesmo sem sentir tanto frio durante a escalada de uma montanha, pode ser que na descida o corpo não tenha calorias suficientes para destinar às extremidades, pois estas foram gastas na subida. É importante economizar calorias se não sabemos com que estamos lidando ou por quanto tempo vamos ficar expostos ao frio. Montanhas são os ambientes que oferecem a maior variabilidade de temperaturas na terra. Durante aproximações, temperaturas podem chegar a exceder os 30†C durante o dia e despencar para 20 graus negativos à noite. Nestes casos, é extremamente importante o uso de vestimentas que não acumulem água. O uso de jaquetas corta-vento de nylon por exemplo, pode acumular grandes quantidades de água em camisetas de algodão por exemplo, o que fará o escalador perder calorias em excesso e possivelmente não ter calorias suficientes para as extremidades mais tarde. Em outras palavras, o maior risco no uso de jaquetas de nylon é ter hipotermia. Tecidos como o Goretex®, em contrapartida, permitem a perca de água da transpiração para o ambiente e a acumulação de água nos tecidos em contato com a pele chega a ser aceitável.
Exaustão: Num quadro de exaustão total sob temperaturas extremas, o corpo simplesmente pára de destinar calorias às extremidades para concentrá-las na região do tórax e cabeça. Mesmo com o uso de roupas feitas para aquelas condições, congelamentos aparecerão facilmente. Além da parte fisiológica, o psicológico do escalador fica muito afetado quando ele está exausto. É normal que escaladores fiquem indiferentes à situações perigosas e mesmo princípios de congelamentos ou doenças de altitude. A despreocupação do escalador diante do perigo (causada principalmente pela exaustão) é o que mais causa tragédias em montanhas.
O tratamento
Primeiramente, submeta a área afetada à temperaturas maiores. Geralmente o tratamento é feito com água morna (38ºC). É importante não sobreaquecer o membro pois isso piorar condição. Evite ao extremo qualquer tipo de exposição ao frio da área afetada. Com o reaquecimento do membro afetado, este ficará inchado.
No tratamento de um pé congelado por exemplo, é importante lembrar à vítima para não esfregar a área congelada. Uma caminhada de várias horas para encontrar ajuda, pode significar o fim do membro afetado. Jamais permita que a vítima caminhe com congelamentos nos pés. Lembre a vítima de não esfregar ou coçar a área. O melhor a se fazer, é enfaixar a área e protegê-la do frio, poeira e também de eventuais acidentes. É recomendável o reaquecimento de um pé afetado depois de qualquer atividade, pois este ficará inchado e não será possível usar uma bota.
Acredite se quiser, mas a aspirina é uma das principais drogas no tratamento e prevenção de congelamentos. Esta mantêm o sangue num estado menos espesso. A Nifedipina também é usada pois é um vaso expansor e melhora a circulação de sangue espesso nas extremidades.
Gangrenas e amputações
Gangrena é uma necrose que sofreu a ação do ar ou bactérias. No caso dos congelamentos, a gangrena é chamada de 'gangrena seca'.
A área necrosada se desidrata e fica negra, com aspecto mumificado. As amputações são adiadas ao máximo com o intuito de deixar o tempo secar as necroses, sempre mantendo aceptia no local afetado para evitar infecções. Cirurgias de extração de tecido morto superficial são realizadas logo quando é descoberto o quão profunda é a necrose.
É muito difícil estabelecer qual é o grau e profundidade de um congelamento logo nos primeiros dias. Geralmente, são necessários 4 dias para descobrir qual é o grau do congelamento e mais de 30 dias para saber onde será a linha de amputação (se necessária). Essa espera é uma tortura para o paciente.
Afortunadamente, uma diagnosticação com tecnécio 99 começou a ser utilizada nos congelamentos e a espera se tornou menor. A técnica possibilita a visualização do tecido vivo, algo muito difícil através de técnicas tradicionais logo nas primeiras semanas. Pouquíssimos hospitais possuem este tipo de exame e experiência em tratamento de congelamentos. Geralmente, os casos mais graves são direcionados ao hospital de Chamonix, França, onde são tratados em média 80 casos de congelamentos por ano.
A amputação de extremidades não é simples já que os ossos amputados devem ser arredondados para não danificarem o tecido envoltório. Geralmente, este segundo tratamento é feito em cirurgias posteriores. Quando há uma amputação, há perca de vasos sangüíneos que são responsáveis pela circulação sanguínea no resto do membro. Após uma amputação o membro fica muito mais propenso a sofrer congelamentos, pois a circulação deste é extremamente pobre.
Prevenção
Beber água e se aclimatar bem é a chave para prevenção de congelamentos em altitude. Mantêr o sangue num estado liqüefeito normal fará com que a circulação nas extremidades corporais seja constante, o que diminuirá os riscos de congelamentos. O uso de aspirinas como medida preventiva é também uma boa estratégia. A aspirina contribui não deixando o sangue engrossar tanto durante o processo de aclimatação.
Nunca é demais dizer: POR FAVOR! Preste atenção no que você compra para colocar nas suas mãos e pés!!! Em cadeias montanhosas baixas como os Alpes, ou mesmo montanhas baixas ao redor de 4500 metros nos Andes, é aceitável o uso de botas semi-rígidas. Acima disso, ou em cadeias montanhosas nas extremas latitudes (Antártida, Alaska), no mínimo, são necessárias botas-plásticas.
Já nas montanhas de 6000 metros no Alaska e Antártida e em montanhas de 8000 metros é preciso algo mais. Botas com polainas e isolamento incorporado como as Millet OneSport® ou Everest®, dominam os pés dos escaladores nas grandes altitudes. No entanto, é possível escalar com botas plásticas pesadas, com cobre-botas de neoprene.
Luvas têm as suas limitações e por haverem tantos tipos e modelos é difícil uma apropriada. Sempre tenha uma luva nas mãos, mesmo na hora de manipular equipamentos. Há tipos de luvas bem finas que cumprem esta função. À temperaturas ambientes menores que -20ºC, é imprescindível o uso de mitons. Não podemos esquecer que adição de vento (sensação térmica menor) e humidade (condução maior), podem fazer com que o seu corpo perca muito mais calorias.
Um grande salto na prevenção de congelamentos nos pés e mãos, foi a invenção de aquecedores químicos. Geralmente estes vêm em pequenos sacos de tecido, pouco maiores que um saquinho de chá. Ao entrar em contato com o ar, eles produzem calor de até 80ºC. Aquecedores químicos podem ser usados no interior de luvas e botas e geram calor por até 8 horas.
Texto: Maximo Kausch